terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Marshmallow e cacos de vidro





Não queria que soasse como carta
Ou como poema
É mais um daqueles clichês antagônicos e extremamente complicados de seguir
Mas que, justamente por isso, se tornam legais e, depois de muitos anos, um cult...
Queria mais manhãs de sol e neblina ao acordar. Mais pés descalços na grama. Menos correria de vai pra lá e vem pra cá. Queria teu abraço quentinho, morninho, implorando sossego e tranquilidade.
Queria a incerteza da volta (quando se está convencido de que haverá, inevitavelmente, uma volta)
Queria, mais do que isso, a sandice dos deuses de andar de mãos dadas com quem se quisesse ou tentasse ou achasse ou provasse ou aprouvesse
Sem temer o olhar do inimigo ou a língua amarga que teima e insiste em falar mesmo com tanta louça suja pra lavar por aí na pia
Deixa os montes, as pias, as más vontades...
“Bons olhos me vejam. Maus olhos cegos sejam. ” Já dizia minha vó.
Misto de benzedura, carinho... ou conselho mesmo.
Nada como um bom chá de camomila à tarde. E um belo calmante à noite (de sexo, literatura, cinema, prosa ou poesia)
Saudade que se guarda no nada. Que incomoda e se molda. À imagem, à perfeição.
Gatos, colinas, textões, caras, riso torto, expressões e a névoa do maldito cigarro a cobrir tudo.
Somebody to love. Mesmo que o love nem seja ou mereça tão love assim.
Música, trampolim.
É assim.
Ser quem se é, quem sabe? Ser quem será.
Exatamente. Irrepreensivelmente. Inexoravelmente.
E...
(7’5” corta pro FIM).

(Deo)

*Vídeo: Clipe da música "Somebody to love", Queen.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Brasília



Brasília, para mim, tem seu cheiro:
Um misto de mato seco, desdobrado entre as retas do seu corpo
e as curvas das rotatórias do teu eixo monumental.
Brasília para mim tem (seu) gosto de saudade, de devir,
de colo, aconchego e nada mais.
Tem sensação do lapso do momento.
Do não pensar.
Do sentir.
Do querer mais.
Brasília para mim tem seu/meu pouso,
identidade,
sincronicidade,

paz.

(Deo)

*Imagem: "Brasília vista do alto", foto de Bento Viana

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Rua Antônio Pires


a rua antiga de areia sempre feliz
ela na cadeira verde
eu na rede azul
nosso sorriso 
o muro da vizinha...
ah! o muro da vizinha era o super esconderijo
hoje só vejo concreto 
ela...
nossa árvore...
nossa conversa...
nosso choro...
tudo se foi
não (re}conheço esse lugar
não (re)conheço essas pessoas
não consigo voltar sem ela 
uma hora tudo vai embora
tudo se foi
 
(Amora)
 
*Pintura: "Balloon girl", de Banksy. 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

há um tempo



a início “não sobrevivemos só com o amor”
tempos se foram e aqui estamos
ela, a que não queria só o amor
deseja que ele seja forte 
joga tudo esperando que ele segure
esperando que ele aceite
ela deve ter esquecido
não sobrevivemos só com ele  
onde ela está? 
no cantinho que não existe só amor
ela nem sabe se existe
mas está no cantinho 
quer sem ele 
mas sempre volta 
“você é tudo...” 
já foi embora 
eu? Quero sobreviver
 
(Amora)
 
*Pintura: The Prepared Bouquet, de René Magritte
 
 

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Interestelar




Teu amor, pra mim, foi uma super nova
Explosão de brilho sem fim
Luz de uma galáxia inteira
(E, para citar o Bhagavad Gita:)
"Se centenas de milhares de sóis nascessem ao mesmo tempo no céu, talvez seu resplendor pudesse assemelhar-se à refulgência de sua forma universal"
Eu, pequeno sol ensimesmado,
Rodopiei alegremente ao teu lado
Sem perceber tuas ejeções de massa e matéria.
Alheio aos teus ventos estelares.
Teu amor se consumiu em si mesmo...
Esfriou... e no espaço tempo que se seguiu
Não se conteve, se transformou em algo maciço e compacto.
Nem minha luz escapou.
Preso a ti, minha deformidade temporal, eu nada via, nada sentia.
Lentamente a consumir-me em ti
Porque tinha os olhos para o brilho do passado.
Paradoxo... olhar o passado e consumir o futuro neste ato...
Ninguém resiste à sua singularidade (já deveria mesmo saber disso).
Talvez, milhões de anos depois,
Possa captá-lo ocasionalmente pelas lentes poderosas de algum Hubble qualquer
A consumir estrelas mais brilhantes e, quem sabe, arrotar seu jato de energia.
Incógnita. Charada. Interrogação.
Quem sabe quantas leis da física quântica poderão explicar-lhe
E eu, boquiaberto, a tentar captar a mística das suas fórmulas e variáveis.
Porque tudo teu aponta luz. E trevas. E alegrias. E desespero. E incompreensões.
Olho pro céu, novamente.
Quem sabe o brilho fugidio das estrelas possa candidamente me embalar.
- Luz do passado, dirão uns.
- Luz do presente, direi eu...

(Deo)

* Imagem: Concepção artística de um buraco negro, do filme Interestelar, de Christopher Nolan