segunda-feira, 26 de setembro de 2016

(A)dores


Por que me dói tudo? - a sujeira na esquina
Os prédios em ruína
A situação das putas e meninas
O péssimo ordenado?
O céu acinzentado
Aquele teu vestido de brocado
E as vidas que não vivi?
A sabedoria que não tive
Os sorrisos que não ri
(Questão controversa) inclusive
o que ainda nem senti?
Me dói o "ser ou não ser"
Por saber ou não saber
Por ter mais passos do que pés pra andar
Por ter mais convicções que provas
Mais tempo que não cabe nas horas
Ainda mais sonhos pra sonhar


(Deo)

* Pintura: "The broken column", de Frida Kahlo

sábado, 24 de setembro de 2016

Volume




O volume da TV incomoda,
Mais incômoda é a dor da separação:
O tempo, a lembrança, a descrença.
Eu já sei.
Desculpa ter que sangrar.
Dorme, que te canto uma cantiga.
Dorme. Que o tempo é curto
E logo amanhece.
Ainda a querer ouvir histórias!?
Dorme e sonha!
E me traga lembranças de lá.
Vou guardar tuas manhãs de sol
E o presente que me deu
Que nunca consegui abrir -
te imploro paciência.
Aceno, a sorrir.
Ah, esqueci,
é preciso dizer:
(a)Deus!

(Deo)

*Pintura: "O terapeuta", de René Magritte

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Recomeço




Estava envolto por pessoas
Mas o sentimento era de solidão
Num mundo onde tudo parece tão fácil
Fácil, para os que fazem parte desse mundo
Estava sentindo-se sufocado...

Abrem-se algumas frestas
Através das quais algumas brisas o ajudam a respirar
Sopros passageiros, diga-se de passagem
Que aos poucos vão perdendo força
E o que o aflige volta a assombrá-lo

Eis que em um quase último suspiro
Um sopro de esperança toma conta de sua inspiração
E o traz de volta
Acreditando que pode haver um recomeço

Optou por deixá-lo tomar conta de seu ser
O preenchendo de bons sentimentos
Carinho, afeto, amizade, amor, paixão...por quê não?
Colocando sorriso em seu rosto
Pois agora há um mundo ao qual ele pertence

Onde não se encontra mais sozinho
Pois aquele que o tocara, ele reconheceu:
Era feito dos mesmos sentimentos que o afligiram um dia
O tocou de forma a amenizar sua dor, sua solidão
E o convenceu que não é errado ser como somos

Grato por este sopro ter lhe tocado a alma
De forma suave, macia, como nunca antes tocada
Seus olhos encheram-se de lágrimas
E em seus pensamentos agora habita

Que o sopro continue presente
Pelo tempo que achar necessário
Na verdade, peço que ele permaneça aqui,
Tocando meu coração

(Rico)


* Pintura: Where We Were, de Pat Perry

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

CARTA AO MENINO CENTAURO


E aquele ano se findara com novas sensações... Cheiro de fruta fresca em época de colheita, orvalho derretido na terra mansa, jardins secretos em caminhos triangulares, flores coloridas em pleno verão.

Brisa de mar com fogos salpicando num céu multicor. Uma areia alva que ainda mantem-se em meus pulmões, fazendo-me sentir aqueles mesmos calafrios, felicidade insone, riso espontâneo, saudade do que poderia viver sem ao menos tê-lo feito ainda. E numa onda oscilante de completude, suas músicas se eternizaram em meu inconsciente ainda não explorado. Seus segredos revelados tomaram forma em meus fantasmas de infância e o desejo por curar-te invadiu cada entranha do meu ser sagitarianamente defensor. Seus devaneios, ainda que pobres de perfeita evolução, encantaram-me amiúde; e o olhar afixado ao meu, desnudando suas fraquezas sem medo, cautela ou vergonha, tomaram-me.

E eis que a sua imagem surge em mim sob a forma de uma realidade palpável e crua, invadindo os meus medos e cicatrizes ainda abertas, reajustando desejo e revelando continuamente os prazeres daquela pele arrepiada. O que sua rotina me revelara, nem mesmo as verdades imutáveis dos perfeitos príncipes pudera saber. Intimidade constante, alimento da alma, banhos do espírito, cama estirada no lençol verde e fronhas azuis a nos saudar. E sobretudo, dormir e acordar ao seu lado fora o que de mim fizera mais presente, e essa falta agora me apudera numa dor fina e constante de saudade.


E sem saber que o davas, numa despedida breve, me curara de grilhões invioláveis. Me libertara de mim e de si mesmo. E sem nem ao menos perguntar porque me tornara tão introspectivo naquela despedida, deixei-te ir, dexei-te permanecer sob a imagem de quinze noites eternizadas, recheadas pelo afeto transmitido como legado familiar incorruptível e apaixonante. E assim, meu menino centauro, agradeço-te por cada ar que pusera em minha boca, cada sopro de vida que deixara, cada palavra bem uma mal lançada como flecha do seu arco encantado.

(Pit)

*Desenho: "Estudo de Centauro", de Maurício Takiguthi