quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Por onde tens andado?


Por onde tens andado? Pergunto-me.
Em qual rua, estado, país tens vivido? Onde tens depositado teus planos e brilhado aquele olhar tão familiar ao meu, aquela entonação peculiar aos meus ouvidos? Quais sonhos tem movido tuas paixões e despertado teu sono a cada amanhecer frio desta cidade que elegemos nossa? Por onde anda tua volúpia e desejo? Perder-te-as? Sabemos que não.
Pus-me a procurar-te em meio às caixas que ainda insistem por decorar o quarto de visitas. As roupas coloridas ainda postas ao uso, os cheiros vívidos, as lembranças permeando os poros da minha pele ressecada neste inverno adentro. Devo, entretanto, dizer-te que o calor de onde venho continua aqui comigo, o amor ainda conforta, a paixão ainda queima.
Em meus passeios diários, quase que religiosamente cumpridos para manter nossa cadelinha atenta e em movimento, tenho buscado a ti, em meio aos escombros deixados pelos vizinhos, na solidão dos asfaltos, na torre da igreja verde que ainda não sei barroca ou gótica, no sorriso amoroso daquela criança de mãos dadas com a mãe, na paisagem horizontal que finaliza o que vejo. Tenho lembrado de ti, de mim, de nós, de como costumávamos ser e estar, por onde costumávamos vislumbrar um futuro pleno e em paz. O lençol verde e fronhas azuis a nos saudar, a areia alva, o céu multicor, o roxo sabor, a pele arrepiada, a intimidade aflorada. Seria mesmo tudo ilusão da carência, fantasia do olhar aparente?
Por onde tens andado? Pergunto-me.
Em quais meios tens adentrado? Em quais fins tens te alegrado? Teria este inverno condensado o teu calor em frieza? Teria tu viajado para visitar glaciais paisagens num mundo distante? Se a cada solstício que impõe cruelmente tuas mudanças e a cada árvore que cresce vagarosamente conosco, temos a divina oportunidade de fazer nossas escolhas e direcionar nossa felicidade, onde estará a tua? Deverias tu vagar o mundo inteiro para exorcizar teus demônios ou pousar-te aqui, onde habito? Deverias eu voar por rios e pedras, correntes e braços de mar, montanhas e chuvas ou aquietar-me aos meus?
De tudo, sabendo eu, multidão, sabendo tu, sina solidão. Sabendo tu, violento movimento, sabendo eu, mansidão. Sabendo eu, permanência, sabendo tu, novidade e explosão. Sabendo tu, neve, sabendo eu, fogo. Postos devaneio e permanência, onde estaremos nós?

(Pit)

sábado, 6 de agosto de 2016

Liberdade


ser livre
aceitar o ser
ser o aceitar
cai chuva
evapora sol
água que fica
estrela vai
ficou amor
ausência presente
completa abso(luta)
soube ser
amar
doar

(Amora)

*Pintura: Mulheres Correndo na Praia, de Pablo Picasso

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Pele-seda



nas macias curvas de teu corpo
quedo meu desejo
nos façamos cativas
vejo teu toque no meu
eu beija-flor do teu Jasmim
emudeço entre planaltos planícies relevos quedas d'água
refaçamoa cativeiros
somos nossa completude
em seu tato ativo paladar
ouço gemidos teus
transpassemos tocamentos
incompletude se longe
os vais nos esperam
os vens nos excitam
ritmamos vai-e-vem
clímax além-corpo
ativapassiva
passivativa
importante não é
o mar sonoro satisfação
a Lua azul júbilo
Vocêu harmonia

(Gela)