terça-feira, 26 de julho de 2016

Nalgum lugar em que eu nunca estive



nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto
teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa
ou se quiseres me ver fechado, eu e
minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;
nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade: cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira
(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas

(E. E. Cummings, tradução: Augusto de Campos)

* Pintura: "Charles and Georges Durand Ruel", de Pierre-Auguste Renoir

domingo, 24 de julho de 2016

De vermes, moscas e liberdades



Uma imensa vontade de fazer-me livre
Se apossou de mim
Como um espírito inquieto
De uma mosca varejeira
A espreitar a minha podridão
Para comê-la
E dela eclodir suas larvas

(Deo)

domingo, 17 de julho de 2016

Mas agora já é hora dessa chuva ir embora...




Quando Chove
(Patrícia Marx)

Quando olho nos teus olhos
Não vejo a luz do amor
Só as sombras do passado
Só um fogo que se apagou
A vida é assim
Nosso espelho se quebrou
É hora de se guardar
Um segredo no coração
(refrão)
Se chove lá fora
Queimo aqui dentro
De vontade de te abraçar
Amor
Quando chove
Fica mais triste esperar
Por alguém
Que não vai chegar
Quando ouço teu silêncio
Escuto meu coração
Bater apressado e urgente
Te querendo sem querer
Cansado de sofrer
Mas agora já é hora
Dessa chuva ir embora

domingo, 10 de julho de 2016

A volta




Voltei melhor
Mais livre
Voltei melhor
Mais tarde
Voltei melhor
Mais frio
Voltei melhor
Mais carne
Voltei como a certeza do ribeirão
Que leva suas águas para distante
Voltei como água nova que empoça
Perfeita para os pés da criança que vem brincar
Voltei
Sem a bagagem nas costas
Sem a medida da rima
Sem a distração da lembrança
Sem a certeza da vida
Sem a inocência da roça.
Voltei porque é tempo de partir

(Deo)

* Escultura: "Alice Through the Looking Glass" - (Alice Através do Espelho) - nos jardins do Castelo Guildford, em Surrey, Inglaterra. Escultora: Jeanne Argent.