terça-feira, 28 de junho de 2016

Habeas Corpus*



Não te culpo pelo não amor. Quem houvera de querer um solitário, esquisito, descompassado. Não te culpo pelo não abraço. Pela não despedida. Pelo não quereres. Pelo não ir (Como se Júpiter e Saturno não fossem vizinhos, mas abrigassem anos luz de distâncias). Não te culpo pelo não vir. Pelos não beijos e mãos não dadas numa tarde qualquer. Não te culpo pelo quarto que não foi um segredo – ou um início – de universo particular. Pelo tempo que não foi eterno enquanto durasse. Não te culpo. Não te culpo por não aceitares minha redenção e muito menos minha humilde oferta. Não te culpo por não reparares que trazia na bagagem minha decisão e minha vontade. Não te culpo por não perceberes o desejo de ficar “sempre e amiúde”. Não te culpo. Quem houvera de aceitar incontestavelmente os incríveis mistérios e surpresas celestes? Não te culpo... Mas foste réu confesso nesse tribunal do tempo quando a acusação alegou: “- Silêncio!”. E tu nada disseste, nada esboçaste, como a esperar um júri invisível te absolver por palavras não ditas e ações não desempenhadas. Quem foi o teu delator? Saberá, pelo menos, do incurso do teu processo e julgamento? “Culpado!” – ecoam ainda vozes dissonantes e incorpóreas. Mas tu, alheio a tudo, prossegues, como a ignorar sentenças, distâncias, esforços, defesas, tempo, páginas, estilhaços de nada e mal me queres. E este juiz – Oh, este terrível juiz feito de músculos e sangue arterial e venoso... Este horrível juiz, feito de batimentos rítmicos e involuntários, aguarda sua defesa: uma só palavra! Um só gesto! Um só olhar (um estalar de dedos, quem sabe...)! Um esboçar de reação. Uma sombra de vontade. Ah, este juiz... Não diga nada, talvez (quem sabe se o que digas não poderá ser usado contra ti no tribunal). A sorte já foi lançada. A sentença, proferida...

*Habeas corpus ("Que tenhas o teu corpo", em latim) é também chamado de “remédio judicial ou constitucional”, pois ele tem o poder de cessar a violência e coação que indivíduos possam estar sofrendo (Glossário Jurídico/STF).

(Deo)

** Ilustração: Personagem "Ricardio", da "Hora da Aventura" de Pendleton Ward

domingo, 26 de junho de 2016

Da chuva




Cai da chuva o pingo
(Como se inverno não pudesse ser)
As muitas certezas dissolvendo no domingo
De um já-não-sei-o-quê
Tão rápido tudo passa.
A se insinuar – quase manha
- gota na vidraça,
preguiça agitada e estranha:
Esperando, talvez, quem dera
Que a vida fosse primavera
E, finalmente, deste cais
Não se ouvissem meus ais (jamais).

(Deo)

* Pintura: "The City Tempest", de Jeremy Mann

segunda-feira, 20 de junho de 2016

A borboleta azul



"Bem, talvez você não ache isso ainda", Alice afirmou, "mas quando você transformar-se em uma crisálida - você irá algum dia, sabe - e então depois disso em uma borboleta, eu acredito que você irá sentir-se um pouco estranha, não irá?"
"Nem um pouco", disse a Lagarta.
"Bem, talvez seus sentimentos possam ser diferentes", finalizou Alice, "tudo o que eu sei é: é muito estranho para mim.
"Você!", disse a Lagarta desdenhosamente. "Quem é você?"

(Lewis Carrol: Alice no país das maravilhas)

Com o texto enigmático e maravilhoso de Lewis Carrol introduzimos uma das poesias de nossas metades... porque toda borboleta, um dia, já foi lagarta...

Como desejar o que não tem?
Como sofrer por algo que não conhece?
É como querer voar sendo uma lagarta 
Mas ela encontrou um jardim 
E nesse jardim borboletas voam 
Mas não, a sua ainda não está lá 
Todas precisam da sua metamorfose 
Não podemos ser o que não somos 
Não podemos dar o que não temos 
Não podemos falar o que não conhecemos 
No final, todas seremos livres 
Umas já são 
Outras precisam de tempo 
Tempo para encontrar o jardim 
Tempo para entender 
Tempo para dar 
Tempo para ser.

(Amora)

* Pintura: IARTS

domingo, 12 de junho de 2016

Sem recomeço




Eis que de onde eu menos esperava veio você: simples e abstrata. Desde o primeiro olhar: ligação.
Sem atalho algum nos cruzamos em meios de caminhos. E agora? Isso não tem hora nem escolha.
Fora do script. Improviso. Caminho. Encontro. Desencontro.
Mas não sabia eu que o abismo me tragaria.
Mas não percebia a prisão que entraria.
E com o tempo cada mágoa dor olhar silêncio-palavra me encarceraria num poço escuro que me cega todo dia um pouco mais e tira de mim a lucidez e me anula em nome de um capricho de posse seu.
E agora? Que bem-querer é esse?
Não foi fuga. É liberdade.
Eu amo, mas me prende.
Suporto não. Esse ciclo, quero-não.
Mal-querer travestido de bem-querer.
Obrigada, quero-não.
E nem sempre distância é distanciamento.
Você planejou ou planejava?
Foi ótimo, viu? E inesquecível em mim, viu? Mas... Obrigada, quero não.
Quisera sem cadeados.
 Você de boca: sim / Você de alma: não
Com cadeados, quero-não.
Melhor longe e distante.
Sem celas ou selas.
Desse modo, quero não.
Se eu conseguisse entender...
Sinceramente, quero-não.
Siga
Com você?
Seguirei não.

(Gela)

Foto: Arquivo pessoal

sábado, 11 de junho de 2016

Canção de ninar-se

A poesia não é nossa, mas traz uma tal profundidade, uma tal correlação com tudo que "haveria de vir e não veio", com todos os mistérios metafísicos e intransponíveis da vida, das relações e dos sentimentos... traduz tanto os gritos que sufocamos e as alegrias incertas a que estamos acostumados a ver, meio que desajeitados, como nesgas de pura luz solar passando por entre as rachaduras da porta. Uma poesia/música para se ouvir e brindar. À coragem de se viver. À coragem de se arriscar, de se ferir e, ainda assim, continuar. Um brinde aos viventes! Um brinde a todos que, um dia, entregarão sua moeda a Caronte, como pagamento dos sonhos, pesos, decepções, alegrias e dias vividos. Vivamos! E que em nosso epitáfio não haja lugar para lamentações...

(Deo)


Canção de ninar-se
(Cláudio Fonseca)

"Toma-me, ó noite eterna,
nos teus braços
e chama-me teu filho."

Fernando Pessoa
"Abdicação"


De qualquer maneira
sempre algo fica pendente.
Seja o calção que não se usou,
o amanhecer que se prometeu,
um abraço que se postergou,
o livro que não se leu,
a viagem que se programou,
o beijo que ficou no olhar.

É seguro que sempre algo
fica pendente.

Ontem, meninas iam à escola
usando laços vermelhos.
Hoje, meninas saem da escola
usando laços vermelhos.
Onde, a de cachos negros?

Às vezes é tarde demais.
Bem mais que o último momento.

Poucas coisas permanecem -
uma noite de Natal,
o mar de Laguna,
o primeiro sol de agosto,
a vontade de comer peixe.

O que é bom é tão pouco quanto mangas roubadas,
que, aliás, não vale um sono sob a mangueira.
O campo, cheio de esterco e de gado,
hoje é favela, amanhã um muro.
O projeto da nova morada
já não é a mesma alegria.
Fica sempre um vestígio de março
à tua espera.

Não te equivoques com as lágrimas.
O que hoje se julga principal
amanhã não passa de acessório.
Estas acácias que bordam de sombras
serão abatidas no outro verão.
Alguns homens... vê! contra o sol,
não passam de larvas trêmulas!
E tudo isso é tão velho
quanto um café requentado.

Lembras um entardecer no pampa argentino?
Pois é... não é saudável se expor demais
a certas paisagens.
O sol nascer ou se pôr
é uma questão de crença do observador -
não precisa geografia.

Tudo é frágil!
A lama é mais antiga que o granito.
O rosto que agora rosa
amanhã é uma tez descarnada.
Entre a faca e a pontada
há apenas coração.

Certo que algo se salva.
E pode ser uma chupeta velha,
um olhar furtivo cruzado na rua,
uma tarde no circo...
Mas o que é isso
comparado ao que serias e não pudeste?

Me perguntas: - E o Amor?
Sim... o Amor!
O Amor é um silêncio demasiado grande.
Às vezes, no máximo, ele prova
que o Paraíso cabe dentro de um berço.
De resto... tênues trapos de sol.

Agora sabes que a alma é mais bela quando nua.
Que a Morte não era mais que a velha amiga
a te esperar na estação.
Um pouco abatida. Tu, mais cansado.
Ambos, fartos de ciência.

Alguns deixam seus nomes
gravados na água (Keats, em seu epitáfio).
Outros, no húmus da terra - e serão vinho.
Melhor que retornes à noite antiga.
Quem sabe...
serás um galgo, e alegre,
brinques nos campos da Escócia.


terça-feira, 7 de junho de 2016

Metal contra as nuvens

Nunca antes uma música fez tanto sentido quanto esta, ao comparar as desventuras de um certo final de semana.
É engraçado notar a "desleal" precisão com que alguns compositores conseguem traduzir nossos sentimentos e o furacão de incertezas que vai por dentro.
Mas fato é que a música existe. A vida existe. E ela se refaz, incomensurável e multicolor como antes...

(Deo)

Metal Contra as Nuvens
Legião Urbana

Não sou escravo de ninguém
Ninguém, senhor do meu domínio
Sei o que devo defender
E, por valor eu tenho
E temo o que agora se desfaz
Viajamos sete léguas
Por entre abismos e florestas
Por Deus nunca me vi tão só
É a própria fé o que destrói
Estes são dias desleais
Eu sou metal, raio, relâmpago e trovão
Eu sou metal, eu sou o ouro em seu brasão
Eu sou metal, me sabe o sopro do dragão
Reconheço meu pesar
Quando tudo é traição
O que venho encontrar
É a virtude em outras mãos
Minha terra é a terra que é minha
E sempre será
Minha terra tem a lua, tem estrelas
E sempre terá
Quase acreditei na sua promessa
E o que vejo é fome e destruição
Perdi a minha sela e a minha espada
Perdi o meu castelo e minha princesa
Quase acreditei, quase acreditei
E, por honra, se existir verdade
Existem os tolos e existe o ladrão
E há quem se alimente do que é roubo
Mas vou guardar o meu tesouro
Caso você esteja mentindo
Olha o sopro do dragão
É a verdade o que assombra
O descaso que condena
A estupidez, o que destrói
Eu vejo tudo que se foi
E o que não existe mais
Tenho os sentidos já dormentes
O corpo quer, a alma entende
Esta é a terra-de-ninguém
Sei que devo resistir
Eu quero a espada em minhas mãos
Eu sou metal, raio, relâmpago e trovão
Eu sou metal, eu sou o ouro em seu brasão
Eu sou metal, me sabe o sopro do dragão
Não me entrego sem lutar
Tenho, ainda, coração
Não aprendi a me render
Que caia o inimigo então
- Tudo passa, tudo passará
(...)