terça-feira, 19 de abril de 2016

Poeira




Abrindo os olhos,
piscando, piscando e absorvendo
A luz que se me depara à frente e ao lado
(Em tudo)
Percebo
Na trilha de roupas sujas pelo chão
O quanto você não me faz falta
Nem nas teias de aranha no teto me lembro de você
O pó da sacada
Em tudo um cheiro de fechado e mofo
(É, talvez a luz ainda me doa os olhos)
O tempo passou
E mesmo a marca de teus pés já foi encoberta pela poeira
Aonde está?
Esteve realmente aqui?
Nesse meu abrigo
Nesse meu vermelho
Nesse meu madrigal?
- E essa chuva que não cessa
Insistentemente teimando em lavar o batente...
Como a comunicar (novamente!?)
Que já devo arrumar a casa
Para uma nova morada
Um novo senhor

(Deo)

*Ilustração: "Cosette", de Emile Bayard

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Sublime toque


vício
dopaminada de plantão
excitação
recompensada do prazer
desejo
sinalizada na vontade
bactéria
germinada na relação
euforia
um beijo é apenas um beijo?
pon ta  do  pé
calor facial
paladar táctil
enxerga sem ver
mãos que degustam
tremores
olfatos suados
audição ofegante
lábios embriagados
fluídos estimulantes
catarse do Ser

(Gela)

* Pintura:  "O Beijo", de Tânia Turcato

domingo, 10 de abril de 2016

João





Separados pela janela de vidro do ônibus
Ar-condicionado-poltrona-acolchoada
Estamos eu e João
João empurra um carrinho de churros em pleno sol
Ao me ver,
Como que compelido por uma força invisível, descomunal
João abaixa a cabeça
Mínimo de fração de segundos nossos olhos se tocaram
Se cruzaram
Mas João abaixou a cabeça...
E na fração de segundos que se passaram
Entendi toda a culpa, esforço, vontade e desilusão de João...
Calma, João...
Não, o mundo não é uma meritocracia!
Mentiram pra você
Mentiram pra mim
Mentiram pra nós
E da minha gaiola dourada te contemplo
Não há melhor ou pior, João
Só há a vida.
Levante a cabeça
E me deixe contemplar, nos seus olhos
A dor que é minha dor...

(Deo)

*Pintura: "Lavrador de Café", de Cândido Portinari

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Pulsação



E eis que teus demônios surgem como fenda escavada no chão, rachadura marcada do sertão, boca seca, pele tesa, desejos ardentes, corpo estirado ao causticante sol.
Mandacaru que em presságio anuncia a salvação da terra.
Serias tu capaz anunciar-te chuva? Seria eu capaz espera-la torrencial?
Inércia que, como enchente, desvenda tendências de outrora.
Deverias tu estagnar desejos? Deverias eu cegar-me em Jericó?
Um lado pulsa, compassado, aquecido, vislumbrando o mar calmo permeado na serra que circunda a tua cidade. Calmaria aconchegante, dedos entrelaçados, sabores esbranquiçados da terra, copos roxos coloridos com frutas, brincadeiras repetidas como jargão, caminhos diários, roupas trocadas, unhas roídas, uma colcha de retalhos costurada em fios de ouro para cada novo olhar diário de afeto... O outro lado, sussurrando ao teu ouvido, gélido e ácido, desperta-te em compassos brandos, tomando como petróleo aquele mar calmo, movendo montanhas sem fé, lentamente, a fim de tomar-te por completo sem ao menos ousar-te sentir.
Sendo como o lugar de onde vim, sem altas montanhas, mar ou chuvas torrenciais, ponho-me a observar-te daqui de baixo, na sombra desse pé de laranja lima que talvez consigas sentir o cheiro, e que tenho marcado como essência, orgulhoso. Do lado de cá, amor, ofereço-te o aconchego dos meus braços, o chá de erva doce, o som dos passos na brita e o sussurrar de palavras amorosas em cada hora do teu dia. E se para esse meu tudo, pouco; se para esse nada, tudo; nada mais.

(Pit)

* Pintura: Detalhe de "A criação de Adão", de Michelangelo

quarta-feira, 6 de abril de 2016

À metade...

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muitos não sentem
sorte ou azar?
não sei
outrora estava pura
agora dormemorrendo
o passado virou presente
demorou...
foi-se por dois sóis
ficamos sós
choveu
foi a falta?
disse não fazer
assim como disse ficar.

(Amora)

*Pintura: Roland Petersen

terça-feira, 5 de abril de 2016

poema de mar e ana




(À minha nova amizade, minha AmigAna)


alma cor luz
ansiosa e leve
tal raspagem do doce de leite panela da tia
fogão a lenha
sem botões
com sensibilidades
vambora
cheiro de terra molhada
abraço libertino e libertador
já olhou o céu hoje?
dia e noite
escuro ou luzente
estrelas
lua
planetestrela
cheiro de lua caramelada
luz que se ouve de um paladar manteigaderretidapãoquente
recarga
energia
mistifório cruzada num cruzamento miscelânea
anverso posinegativo se eu fosse onda...

(Gela)

*Pintura: "A Bailarina II", de Miró