segunda-feira, 28 de março de 2016

Duas almas azuis



desde a manhã até o pôr-do-sol
estrelas que invadem
borboletas que voam
a Lua?
pura cumplicidade
o Mar?
nossa ligação
o tempo?
ah... esse tempo...
tornou o azul perfeito

(Amora) 

*Pintura: "A noite estrelada", de Vincent Van Gogh

sábado, 26 de março de 2016

Amado


Como pode ser gostar de alguém
E esse tal alguém não ser seu
Fico desejando nós, gastando o mar
Pôr-do-sol, postal, mais ninguém

Peço tanto a Deus
Para lhe esquecer
Mas só de pedir me lembro
Minha linda flor
Meu jasmim será
Meus melhores beijos serão seus

Sinto que você é ligado a mim
Sempre que estou indo, volto atrás
Estou entregue a ponto de estar sempre só
Esperando um sim ou nunca mais

É tanta graça lá fora passa
O tempo sem você
Mas pode sim
Ser sim amado e tudo acontecer

Sinto absoluto o dom de existir
Não há solidão, nem pena
Nessa doação, milagres do amor
Sinto uma extensão divina

É tanta graça lá fora passa
O tempo sem você
Mas pode sim
Ser sim amado e tudo acontecer
Quero dançar com você
Dançar com você
Quero dançar com você
Dançar com você

(Vanessa da Mata / Marcelo Jeneci)

sexta-feira, 25 de março de 2016

AMOR EM TRÊS DIAS



O NAMORO... No primeiro dia, ele veio navegando num rio avermelhado, salpicado numa neve ainda mais alva que a poeira serrada que cobria os meus pulmões. Seu perfume ainda remetia-me à noite anterior e o hálito aquecia a frieza deixada nos lençóis enodoados das noites passadas. Saliva, suor, suspiro, calor, afeto, suas mãos pareciam movimentar-se exatamente da forma que eu esperava. E então, o rio abriu-se num vermelho escuro, iluminação romântica, e um pedido público de casamento. A música tangenciou o meu coração e uma delas se eternizará, trazendo a imagem dele sempre que a ouvir.

O CASAMENTO... No segundo dia, ele retorna para a minha corrente marítima ainda mais lindo, ainda mais carinhoso e agora trazia no olhar um desejo diferente, um sorriso terno que deixavam aqueles dentes aureolados no azul púrpura ainda mais brilhante. E então, a inevitável intimidade tomou conta do nosso sonoro contato, enchendo o meu coração de alegria e forçando-me a direcionar-me para ele, olhos, boca, sentidos e mente. E pus-me a amá-lo com toda a verdade que foi-me dada como dádiva de vida.

Um amor ainda mais puro e sadio, imerso na certeza da sua breve partida. Um amor recheado de liberdade e baseado no único desejo de ver-nos felizes.

A DESPEDIDA... No terceiro dia, já apresentados com carícias públicas, o meu amor foi selado. A única e mais cabal importante certeza era a que sempre iria amá-lo, independente de tempo ou espaço que como a flecha lançada, corta-nos na certeza da sua existência... dois seres livres que veem-se ao longe. Emocione-me contando histórias da minha vida e por sentir o calor do afeto vindo do seu olhar. Tê-lo abraçado no escuro do cinema, sentindo o medo no suor das suas mãos, serão sensações que nunca esquecerei, e isso me transborda em felicidade, pois é o único presente intransponível e eterno que posso deixar como memória de vida.

E então, nos despedimos. Vi afastar-se lentamente na janela de vidro suada com pequenas gotas de chuva, e no caminho chorei de alegria. Alegria por ter vivenciado uma existência de amor em apenas três dias. Alegria por sabê-lo ali, eternizado.

E nesse prólogo de despedida, chamo Vinícius para dissolver o meu sentimento em suas palavras: 
“E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas. 
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.”

(Pit) 

* Pintura: "The bed", de Toulouse-Lautrec

quinta-feira, 24 de março de 2016

E se...




Antes fosse saudade, mas não é. Antes seja mesmo saudade, mas é. Antes é saudade, e que seja.
Depois... Ah! Depois... Ela vem em doses homeopáticas... Será? Em mim nada é a conta-gotas! Eu a tenho rasgada e doída, foto de amor que se acaba, música surda em meu corpo, silêncio que berra e diz “estou aqui!”
Sou saudosa. Não-solitária.
Sou saudadidão. Sou solidade. Sou saudade-solidão, sou solidão-saudade, e sou, ainda e sempre o nunca nenhuma das duas.
Incessantemente quero estar. Não sei estar. O meu viver é ser. Unicamente ser. Com bravura teimar em estar. O ser me (per)segue.
(Re)(me)moro-me na saudadidão.
“Como sobrevive?”
Não sobrevivo. Eu me revivo tão por isso.
Ree(x)isto na solidade.
De que modo posso respirar sem pulsar nesse ritmo? Eu sou e existo em meio a esta enxurrada de presenças e faltas, estadas ou estadias, de marés altas, luas cheias, rios sangrando, pés de jambo dezembrando.
Se eu fosse borboleta... Seria azul! Azul com fúcsia e pintinhas amarelas... Minha Mãe gosta de amarelo...
Borboleta eu seria das que voam solitárias e deixam as flores com saudade. Como o gosto da mexerica nas mãos adultas relembrando a cada gomo o sol, os mosquitos, as risadas e as brincadeiras da infância...
E essas doses alopáticas de solidão e saudade me embriagam. Preciso confessar, esta embriaguez é o sopro divino que entra por minhas narinas dizendo: “Ei! Você é gente!”
Antes é saudade. Antes é solidão.
Agora era saudade. Agora era solidão.
“Você é gente!”

(Gela)

quarta-feira, 23 de março de 2016

Destino




Na rodoviária,
Entre as luzes gris e o canto dos pássaros
Velhas senhoras tricotam o destino
Com seus xales verdes e seus gorros brancos
Rezam talvez?
Como um feitiço lançado ao ocaso acaso...
Ou seriam murmúrios débeis, lamentações silenciosas
Pelos que já foram...
Agora que estão tão próximas de suas próprias idas?

(Deo)

terça-feira, 22 de março de 2016

Baralho


     


    Dois lados.
    Outro de dentro e um de fora. Tem alguém aí? Lados encruzilhados.
    Viaduto engarrafado. Um de dentro ou outro de fora.
    Onde nada começa tudo finalizo. Fins infinitos sem ponto final com
    reticências ponto e vírgula dois pontos. Termina não, virgulando vem-e-vai.
    Reflexo de êxtase o meu em você enquanto o outro objeto-coisa sanguessuga
    minhas veias.
    Nenhum equilíbrio pouca justiça de sete em sete reformulo o mesmo
    de mim refaço déjà vu ressonantemente.
    Outro de fora e um de dentro. Desautomatizo-me em luz minha em
    você e a sua em mim sufoca-me, busca divergente de incomplexos vazios.
    Cachoeira do El Dorado que me seduz e ojeriza. Pulo? Passo para trás?
    Desperto!
    Desfamiliarizo-me do vulgar cult. Quem nos dera... Plural? Dois não
    precisa ser plural ou precisa sei lá vai que... deixa isso de lado e venha cá, lá,
    acolá, ali, aqui agora chega. Quem disse? Singular do Plural? Eco em silêncio.
    Eco de silêncio pode ser deve ser.
    Incógnita.
    Um de fora ou outro de dentro. Cachoeira de Fumaça. Salto ou corro.
    Chuvisco de suor em flor de pele. Habito no hábito absorto assimilado. Me
    absolvo à condenação de viver em ciclo. Oh! Nêmesis de minh’alma. Lírico.
    Não sigo. Raízo-me. Machado flores as folhas caem.
    Espinhos cultivados.
    Dentro-fora. O entre que contrai, distrai, abstrai. Fora-dentro. Silêncio
    distonante.
    Mania.
    Dentro de mim, outro. Fora de mim, eu.
    Fora do outro, eu. Dentro do outro, outro.
    Os alívios de instantes a leveza sublime da paz bélica do eu +/- eu que
    despenhadeiro curto encurvado e veloz porque tentação alternada alternativa
    desautorizante desautorizada. Remodelada.
    Refaço fases de um futuro imediatamente anterior de um passado que
    há de vir.
    Caos resoluto convergente sob progresso que não se finaliza.
    Outro de dentro e um de fora.
    Um de fora ou outro de dentro.
    Binários multíplice isoscélico.
    cara e coroa.
    cara ou coroa.
    Dois lados.

   (Gela)

   * Pintura de Chie Yoshii