domingo, 18 de dezembro de 2016

Não há de ser nada





Sabe, eu, menino que sou, andando ao lado e ziguezagueando nesta vida, me proponho a ser nada. Resoluto-me a ser nada. Que mal haverá em não saber das coisas o tino? Ou de arrefecer-me escandalosamente à tarde, frente ao calor do dia, a esperar calmamente a brisa da noite a cutucar-me os cabelos e tirar-me o suor da fronte? Eu, que nada, me refastelo nos dias como valsa. Se é hora de comer, eu como. Se é hora de dormir, horas! Durmo! E o curso da vida vai passando, nesse meu meio emblemático não ser, neste balaio de coisas que invento e coleciono. E tem você. E tem eu, E tem nós. E tem tudo. 

(Deo)

*Pintura: "Paz", de Manuel Alejandro Rodriguez Alvarez.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

O voo




Distâncias voadas e diminuídas:
Entendi tanto de sua poesia;
Desse teu pé de laranja lima
E do som dos pés arrastados na brita.
Do cheiro do chá de erva cidreira
E das quaresmeiras em flor
(Que, ironicamente, colocam flores roxas azuis, encarnadas... como teu segredo e o meu).
As serras que circundam tua cidade (não a minha!),
Cujas cristas parecem teu mar revolto -
Que, como petróleo, arrasta multidões sem fim
E o teu espreitar, no meu eterno oscilar...
Mas, então, não era
E o agora já não pôde mais se sustentar no depois.
Não voltarei de mãos vazias...
Trarei um punhado de tuas lembranças, de tuas essências
(Ainda que só um cadinho)
Pra poder acalentar a dor da saudade...
Vai embora, amor meu.
Vai embora.
Fico aqui com meus campos de trigo e volto pra minha roseira
E que haja mais flores que espinhos no seu caminho.

(Deo)

*Pintura: Ícaro, de Henri Matisse

domingo, 23 de outubro de 2016

"Hoje a noite não tem luar"




na véspera do natal ela apareceu
talvez terá sido o espírito natalino...
nunca acreditou nele
falaram das dores e desejos
uma semana se passou 
lá estavam
de um lado a tímida
do outro, fascinada 
os primeiros olhares 
não existiria tradução
o primeiro adeus
desejo do passado ser presente
lá estavam novamente
o primeiro toque... 
as primeiras curvas... 
estavam presente na alma
hoje... onde estará? 
pensarão nos anjos?
tudo que tiveram
em um gole não voltará
como grandes caminhos
não existirá tempo

(Amora)

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

(A)dores


Por que me dói tudo? - a sujeira na esquina
Os prédios em ruína
A situação das putas e meninas
O péssimo ordenado?
O céu acinzentado
Aquele teu vestido de brocado
E as vidas que não vivi?
A sabedoria que não tive
Os sorrisos que não ri
(Questão controversa) inclusive
o que ainda nem senti?
Me dói o "ser ou não ser"
Por saber ou não saber
Por ter mais passos do que pés pra andar
Por ter mais convicções que provas
Mais tempo que não cabe nas horas
Ainda mais sonhos pra sonhar


(Deo)

* Pintura: "The broken column", de Frida Kahlo

sábado, 24 de setembro de 2016

Volume




O volume da TV incomoda,
Mais incômoda é a dor da separação:
O tempo, a lembrança, a descrença.
Eu já sei.
Desculpa ter que sangrar.
Dorme, que te canto uma cantiga.
Dorme. Que o tempo é curto
E logo amanhece.
Ainda a querer ouvir histórias!?
Dorme e sonha!
E me traga lembranças de lá.
Vou guardar tuas manhãs de sol
E o presente que me deu
Que nunca consegui abrir -
te imploro paciência.
Aceno, a sorrir.
Ah, esqueci,
é preciso dizer:
(a)Deus!

(Deo)

*Pintura: "O terapeuta", de René Magritte