segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Um inteiro

A ideia surgiu do incessante (e visceral) sentimento de estarmos intimamente conectados... como um jogo de quebra cabeças, um vaso partido ou mesmo queijo e goiabada... Um sentimento nos une, histórias, cabeças e corações diferentes. Como os elementos da natureza que, diferentes entre si, se (re)combinam para criar a vida...

Nós, por nós mesmos...


Eu sou a sombra da tarde. E uma ilusão. Ou os ossos do mundo, a certeza dos fracos, a busca pela gratidão. Sou o poço sem fundo, o verde rastejante sempre pronto a te tocar (se quiser, será). A certeza da última morada. A grandeza da fartura. O cio de recriar-se sempre pronto a dar mais, a oferecer mais. Sou a tradição dos antigos, as rezas e crenças dos antepassados, a força e liga da sustentação dos costumes, a massa concreta de elevação das casas que arrasta consigo as famílias e os “ais”.
Sou o terremoto que sacode e obriga a repensar a vida, sem a qual ela não teria ou seria... vida. Sou o grão farto, os pés sujos na lama, a carne entre os dentes e os ossos. Sou o pesado, a gravidade que puxa ao centro, quando tudo teu quer voar... e embora estranhes... também sou eu que não te deixo se arrebentar!
Sou o bater e moer dos grãos, da multiplicidade que sustenta: do pão que alimenta o corpo à bebida que extasia a alma!
Sou o brilho contido na pedra bruta, a beleza secreta pronta a revelar-se aos dispostos por buscá-la. O coração duro como a terra seca: as ranhuras na testa e na alma.
Mas não te enganes... basta umas poucas gotas de chuva para refazer-me inteiro, brutalmente verdejante e de multiplicidade de cores sem igual. Quem sabe, se (me) deixares, faço da sua vida um eterno carnaval...

(Deo)

Sou. Vou. Venho. Mudo.
Enquanto líquida, posso saciar a sede, regar a vida, ser fluida e maleável. Estar entre pedras ou flores. Ser riacho. Ser rio. Ser lago ou lagoa. Ser como o mar que vai e vem, passa e deixa saudade, vai querendo ficar e fica querendo ir. Escorrego na pele e tiro impurezas. Inicio o ciclo e me deixo levar pela maré, reluto um pouco, depois vou, não posso parar, não sei me estagnar, só sei que não paro. Não posso parar. Metamorfizo-me.
Quando gasosa, posso voar. Moldo-me. Camuflada como quem vigia, escondo-me. Sou fumaça de vida. Inodora passo despercebida, imprescindível sou vaidosa. Continuo no ciclo. Não sei ficar. Também não sei me ir. Quero continuar nuvem. Nuvem não posso ficar. Fotossinto-me.
Se sou sólida, não posso estar. Minha natureza não é fria nem estática. Sou livre. Minha natureza clama por voar ou me moldar. Parar? Ficar? Não há, tenho um ciclo para seguir. Mutaciono-me.
A vida pulsa em mim e a necessidade de me remodelar para crescer me chama. Fugir seria uma opção... Escapar de si mesma não me é conveniente, muito menos convincente. Então sigo. Por mais que eu tente, há sempre um ímã me chamando e convidando: “Carpe diem!”  
E assim sigo: um dia fluida, outro nuvem e nunca granizo. 

(Gela)

Dele surgi como fogo e por ela findarei em cinzas... Labaredas incandescentes salpicam as partículas do meu núcleo em chamas, queimando em minha existência o desejo da tua boca, as vísceras das tuas entranhas e o ávido furor evaporado de ti. 
Quando lava, invasão... Da vida, agitação compulsiva em seres alados correndo pelas florestas encantadas. Da paixão, multidão desvairada a dividir-me em outros mil pedaços que, ao reagrupar-se, dispersam-se em novas buscas. 
Quando pó, inspiração... Do amor, entrega desmedida numa busca incessante por diamantes lapidados pelos seres encantados de outrora. Do luto, vida em reverso de aprendizado, alegria sussurrada em choro profundo de abstinência.
E de tudo, contenha-te ao aproximar-te. O calor amoroso aquecido nesta fenda traqueal poderá despir os teus segredos, e por vezes a inquietude dos teus desejos farão dos meus amordaçados.
E então, numa galáxia qualquer, não sendo tu terra para conter-me ou água para curar-me, senta-te e escuta o atrito dos meteoros a anos e anos luz desta imensidão que veneras.

(Pit)