quinta-feira, 29 de março de 2018

PERGUNTAS DE UM TRABALHADOR QUE LÊ



Quem construiu a Tebas de sete portas?
Nos livros estão nomes de reis:
Arrastaram eles os blocos de pedra?

E a Babilônia várias vezes destruída
Quem a reconstruiu tantas vezes?

Em que casas da Lima dourada moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros, na noite em que a Muralha da China ficou pronta?

A grande Roma está cheia de arcos do triunfo:
Quem os ergueu?
Sobre quem triunfaram os Césares?

A decantada Bizâncio
Tinha somente palácios para os seus habitantes?

Mesmo na lendária Atlântida
Os que se afogavam
gritaram por seus escravos
Na noite em que o mar a tragou?

O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Sozinho?

César bateu os gauleses.
Não levava sequer um cozinheiro?

Filipe da Espanha chorou,
quando sua Armada naufragou.
Ninguém mais chorou?

Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu além dele?
Cada página uma vitória.
Quem cozinhava o banquete?

A cada dez anos um grande Homem.
Quem pagava a conta?

Tantas histórias.
Tantas questões.

(Bertolt Brecht)

*Foto: "Trabalhadores", de Divaldo Moreira/Comércio da Franca

quarta-feira, 28 de março de 2018

NÃO SINTO SUA FALTA




Não sinto tua falta.
Nem falta do teu cheiro
de perfume importado
que me exportou de mim.
Não sinto falta
do teu érre puxado,
nem do teu beijo
gosto-de-dente
que morde coração-envenenado.
Não sinto tua falta.
Nem falta do teu olhar barroco,
do teu gosto agressivo,
da dor que tu me provocas
feito extração de siso.
Não sinto tua falta.
NÃO SINTO.
Não lembro de você.
Nem da tua respiração ofegante,
nem do teu andar elegante,
nem da tua sorte disfarçada
de porta-que-encara-bunda-de-elefante.
Não sinto tua falta.
Sinto ânsia.
Distância.
Não sinto falta do teu deus-oriental,
do teu signo-preto,
do teu silêncio-grito
que me soa poema-lírico.
Sinto ânsia.
E a provoco.
E enfio meus dez-dedos
na garganta
pra ver se vomito teu ser
da minha alma.

(Lucas Veiga)

*Vídeo: Clipe da música Barquinho de Papel, de Anavitória

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Marshmallow e cacos de vidro





Não queria que soasse como carta
Ou como poema
É mais um daqueles clichês antagônicos e extremamente complicados de seguir
Mas que, justamente por isso, se tornam legais e, depois de muitos anos, um cult...
Queria mais manhãs de sol e neblina ao acordar. Mais pés descalços na grama. Menos correria de vai pra lá e vem pra cá. Queria teu abraço quentinho, morninho, implorando sossego e tranquilidade.
Queria a incerteza da volta (quando se está convencido de que haverá, inevitavelmente, uma volta)
Queria, mais do que isso, a sandice dos deuses de andar de mãos dadas com quem se quisesse ou tentasse ou achasse ou provasse ou aprouvesse
Sem temer o olhar do inimigo ou a língua amarga que teima e insiste em falar mesmo com tanta louça suja pra lavar por aí na pia
Deixa os montes, as pias, as más vontades...
“Bons olhos me vejam. Maus olhos cegos sejam. ” Já dizia minha vó.
Misto de benzedura, carinho... ou conselho mesmo.
Nada como um bom chá de camomila à tarde. E um belo calmante à noite (de sexo, literatura, cinema, prosa ou poesia)
Saudade que se guarda no nada. Que incomoda e se molda. À imagem, à perfeição.
Gatos, colinas, textões, caras, riso torto, expressões e a névoa do maldito cigarro a cobrir tudo.
Somebody to love. Mesmo que o love nem seja ou mereça tão love assim.
Música, trampolim.
É assim.
Ser quem se é, quem sabe? Ser quem será.
Exatamente. Irrepreensivelmente. Inexoravelmente.
E...
(7’5” corta pro FIM).

(Deo)

*Vídeo: Clipe da música "Somebody to love", Queen.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Brasília



Brasília, para mim, tem seu cheiro:
Um misto de mato seco, desdobrado entre as retas do seu corpo
e as curvas das rotatórias do teu eixo monumental.
Brasília para mim tem (seu) gosto de saudade, de devir,
de colo, aconchego e nada mais.
Tem sensação do lapso do momento.
Do não pensar.
Do sentir.
Do querer mais.
Brasília para mim tem seu/meu pouso,
identidade,
sincronicidade,

paz.

(Deo)

*Imagem: "Brasília vista do alto", foto de Bento Viana

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Rua Antônio Pires


a rua antiga de areia sempre feliz
ela na cadeira verde
eu na rede azul
nosso sorriso 
o muro da vizinha...
ah! o muro da vizinha era o super esconderijo
hoje só vejo concreto 
ela...
nossa árvore...
nossa conversa...
nosso choro...
tudo se foi
não (re}conheço esse lugar
não (re)conheço essas pessoas
não consigo voltar sem ela 
uma hora tudo vai embora
tudo se foi
 
(Amora)
 
*Pintura: "Balloon girl", de Banksy. 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

há um tempo



a início “não sobrevivemos só com o amor”
tempos se foram e aqui estamos
ela, a que não queria só o amor
deseja que ele seja forte 
joga tudo esperando que ele segure
esperando que ele aceite
ela deve ter esquecido
não sobrevivemos só com ele  
onde ela está? 
no cantinho que não existe só amor
ela nem sabe se existe
mas está no cantinho 
quer sem ele 
mas sempre volta 
“você é tudo...” 
já foi embora 
eu? Quero sobreviver
 
(Amora)
 
*Pintura: The Prepared Bouquet, de René Magritte
 
 

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Interestelar




Teu amor, pra mim, foi uma super nova
Explosão de brilho sem fim
Luz de uma galáxia inteira
(E, para citar o Bhagavad Gita:)
"Se centenas de milhares de sóis nascessem ao mesmo tempo no céu, talvez seu resplendor pudesse assemelhar-se à refulgência de sua forma universal"
Eu, pequeno sol ensimesmado,
Rodopiei alegremente ao teu lado
Sem perceber tuas ejeções de massa e matéria.
Alheio aos teus ventos estelares.
Teu amor se consumiu em si mesmo...
Esfriou... e no espaço tempo que se seguiu
Não se conteve, se transformou em algo maciço e compacto.
Nem minha luz escapou.
Preso a ti, minha deformidade temporal, eu nada via, nada sentia.
Lentamente a consumir-me em ti
Porque tinha os olhos para o brilho do passado.
Paradoxo... olhar o passado e consumir o futuro neste ato...
Ninguém resiste à sua singularidade (já deveria mesmo saber disso).
Talvez, milhões de anos depois,
Possa captá-lo ocasionalmente pelas lentes poderosas de algum Hubble qualquer
A consumir estrelas mais brilhantes e, quem sabe, arrotar seu jato de energia.
Incógnita. Charada. Interrogação.
Quem sabe quantas leis da física quântica poderão explicar-lhe
E eu, boquiaberto, a tentar captar a mística das suas fórmulas e variáveis.
Porque tudo teu aponta luz. E trevas. E alegrias. E desespero. E incompreensões.
Olho pro céu, novamente.
Quem sabe o brilho fugidio das estrelas possa candidamente me embalar.
- Luz do passado, dirão uns.
- Luz do presente, direi eu...

(Deo)

* Imagem: Concepção artística de um buraco negro, do filme Interestelar, de Christopher Nolan