segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Rua Antônio Pires


a rua antiga de areia sempre feliz
ela na cadeira verde
eu na rede azul
nosso sorriso 
o muro da vizinha...
ah! o muro da vizinha era o super esconderijo
hoje só vejo concreto 
ela...
nossa árvore...
nossa conversa...
nosso choro...
tudo se foi
não (re}conheço esse lugar
não (re)conheço essas pessoas
não consigo voltar sem ela 
uma hora tudo vai embora
tudo se foi
 
(Amora)
 
*Pintura: "Balloon girl", de Banksy. 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

há um tempo



a início “não sobrevivemos só com o amor”
tempos se foram e aqui estamos
ela, a que não queria só o amor
deseja que ele seja forte 
joga tudo esperando que ele segure
esperando que ele aceite
ela deve ter esquecido
não sobrevivemos só com ele  
onde ela está? 
no cantinho que não existe só amor
ela nem sabe se existe
mas está no cantinho 
quer sem ele 
mas sempre volta 
“você é tudo...” 
já foi embora 
eu? Quero sobreviver
 
(Amora)
 
*Pintura: The Prepared Bouquet, de René Magritte
 
 

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Interestelar




Teu amor, pra mim, foi uma super nova
Explosão de brilho sem fim
Luz de uma galáxia inteira
(E, para citar o Bhagavad Gita:)
"Se centenas de milhares de sóis nascessem ao mesmo tempo no céu, talvez seu resplendor pudesse assemelhar-se à refulgência de sua forma universal"
Eu, pequeno sol ensimesmado,
Rodopiei alegremente ao teu lado
Sem perceber tuas ejeções de massa e matéria.
Alheio aos teus ventos estelares.
Teu amor se consumiu em si mesmo...
Esfriou... e no espaço tempo que se seguiu
Não se conteve, se transformou em algo maciço e compacto.
Nem minha luz escapou.
Preso a ti, minha deformidade temporal, eu nada via, nada sentia.
Lentamente a consumir-me em ti
Porque tinha os olhos para o brilho do passado.
Paradoxo... olhar o passado e consumir o futuro neste ato...
Ninguém resiste à sua singularidade (já deveria mesmo saber disso).
Talvez, milhões de anos depois,
Possa captá-lo ocasionalmente pelas lentes poderosas de algum Hubble qualquer
A consumir estrelas mais brilhantes e, quem sabe, arrotar seu jato de energia.
Incógnita. Charada. Interrogação.
Quem sabe quantas leis da física quântica poderão explicar-lhe
E eu, boquiaberto, a tentar captar a mística das suas fórmulas e variáveis.
Porque tudo teu aponta luz. E trevas. E alegrias. E desespero. E incompreensões.
Olho pro céu, novamente.
Quem sabe o brilho fugidio das estrelas possa candidamente me embalar.
- Luz do passado, dirão uns.
- Luz do presente, direi eu...

(Deo)

* Imagem: Concepção artística de um buraco negro, do filme Interestelar, de Christopher Nolan

domingo, 18 de dezembro de 2016

Não há de ser nada





Sabe, eu, menino que sou, andando ao lado e ziguezagueando nesta vida, me proponho a ser nada. Resoluto-me a ser nada. Que mal haverá em não saber das coisas o tino? Ou de arrefecer-me escandalosamente à tarde, frente ao calor do dia, a esperar calmamente a brisa da noite a cutucar-me os cabelos e tirar-me o suor da fronte? Eu, que nada, me refastelo nos dias como valsa. Se é hora de comer, eu como. Se é hora de dormir, horas! Durmo! E o curso da vida vai passando, nesse meu meio emblemático não ser, neste balaio de coisas que invento e coleciono. E tem você. E tem eu, E tem nós. E tem tudo. 

(Deo)

*Pintura: "Paz", de Manuel Alejandro Rodriguez Alvarez.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

O voo




Distâncias voadas e diminuídas:
Entendi tanto de sua poesia;
Desse teu pé de laranja lima
E do som dos pés arrastados na brita.
Do cheiro do chá de erva cidreira
E das quaresmeiras em flor
(Que, ironicamente, colocam flores roxas azuis, encarnadas... como teu segredo e o meu).
As serras que circundam tua cidade (não a minha!),
Cujas cristas parecem teu mar revolto -
Que, como petróleo, arrasta multidões sem fim
E o teu espreitar, no meu eterno oscilar...
Mas, então, não era
E o agora já não pôde mais se sustentar no depois.
Não voltarei de mãos vazias...
Trarei um punhado de tuas lembranças, de tuas essências
(Ainda que só um cadinho)
Pra poder acalentar a dor da saudade...
Vai embora, amor meu.
Vai embora.
Fico aqui com meus campos de trigo e volto pra minha roseira
E que haja mais flores que espinhos no seu caminho.

(Deo)

*Pintura: Ícaro, de Henri Matisse